Genealogia da Família Mendonça

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LEMBRANÇAS QUE FICARAM

 

Que pena! Não se fazem mais famílias como antigamente! Nos casarões, pais e filhos viviam em harmonia. Todos se amavam e se ajudavam. Após os casamentos dos filhos – tudo de acordo com o figurino – começou a se anunciar a terceira geração. Cada bebê anunciado era fonte de alegria para todos.

Começava a confecção de casaquinhos, cueiros, mantas, camisas de pagão e fraldas de pano, pois as descartáveis ainda não haviam chegado...

O nascimento era uma festa. Todos queriam saber os detalhes: é menino ou menina? É sadio, perfeito? Com quem se parece? E a família ia ver o bebê no hospital e isso era o assunto das conversas às refeições, até o dia da chegada da mãe e da criança. Estava já arrumado o berço – Moisés do bebê, enfeitado. A criança se transformava no rei da casa.

Assim, vieram aparecendo dois, três, quatro, sete, dez... A família cresceu. O avô orgulhoso exibia seu retrato rodeado de netos.

Quando já eram 4 ou 5, vinha o Natal. Não era uma festa “mercantilizada” como a de hoje. Havia compras, sim – mas cuidava-se também do presépio, para lembrar o Aniversariante. E casa um gastava dentro de suas posses; sem TV e os anúncios d'agora, todos aceitavam alegremente viver como Deus permitia. Os adultos já tinham feito suas compras; tudo estava escondido, e era entregue à avó na véspera.

Na manhã de Natal, era grande a ansiedade. Os que moravam na casa – mãe impacientavam-se aguardando a chegada dos primos que moravam fora. Quando a turma toda estava reunida, em fila por idade, avó abria a porta da sala de visitas: a caverna de Ali-Babá. Todos procuravam seu pé de sapato ali deixado na véspera – e eram só exclamações de alegrias.

Como era bom e bonito! Cada um segurava os seus presentes enquanto o avô, pachorrento, dobrava papeis e fitilhos coloridos. Seguia-se o almoço festivo. Era um dia inteiro da família reunida.

Os aniversários eram festejados na casa-mãe. A sala era enorme e tudo era feito em casa: bolo, doces, salgados, papéis de balas...

Depois havia sessões ininterruptas de cinema – filmes e projetor hoje obsoletos. Mas a criançada vibrava.

As festas juninas eram outro motivo para reunir a família. E, no carnaval, todos dançavam, cantavam e brincavam até tarde. Para alguns amigos, a família foi apelidada: Unidos da Conde Bonfim”.

Tudo foi terminando aos poucos, porque “não se fazem mais famílias como antigamente”.

 

Paulo Cláudio foi o primeiro da terceira geração. Primeiro filho, primeiro neto, primeiro sobrinho. Como foi mimado! Bebê jamais adormeceu deitado no “Moisés”. Todos queriam acalenta-lo, nina-lo no colo. Até completar dois anos não falava, embora pronunciasse todos os fonemas. Mas falar, pra que? Se seus desejos eram adivinhados...

Aos quatro anos foi para o jardim de Infância. Foi e voltou no mesmo dia. O fígado protestou e o menino só voltou ao Jardim no ano seguinte.

 

JOÃO CLÁUDIO - Chegou pouco depois. Um bebê em tecnicolor: cabelos louros, olhos azuis, pele branca e ... rosto vermelho, quando no troninho. Levado! Tão levado que a babá só levava à pracinha com “arreio”.

 

ANA MARIA – foi a terceira a vir. Independente, geniosa, apaixonada pelo avô. Se os pais queriam leva-la a passear aos domingos, era uma tragédia: queria ficar com o avô o dia inteiro. Quando saia à rua com ele, dizia para a avó: “Se alguma moça falar com ele, dou-lhe pontapés nas canelas”. Quando se separou – foram morar em Curvelo-MG – ela e o avô eram os que mais choravam na partida. E lá longe ela escrevia cartas para o avô – cartas que não enviava e que ela mesma respondia, pois ele já se fora.

 

MARIA LUCIA – era gordinha. Tipo de holandesa. Olhos bem azuis, bem clara. Maria Lúcia  era pachorrenta. Não tinha pressa. Quando ia às paradas militares na cidade, quem lhe dava a mão já sabia: tinha que esticar o braço e fazer força.

 

VERA MARIA – era a chorona. Ficava horas sentada na cadeira alta, ao lado da geladeira na cozinha. Quando cresceu um pouco e era contrariada jogava-se na cama cantando: “Um trevo no meu jardim”. Não tinha muita memória – mas foi persistente, e aperfeiçoou essa faculdade de tal forma, que sabia o livro e a página em que se encontrava determinado assunto.

 

CARMEM MARIA – era miudinha. Num carnaval, vestiram-na de gatinho preto. Passou uma véspera de Natal na casa-mãe. Foi uma noite de chorinho baixo: ela queria a mãe... Quando se perguntava a ela o que queria comer, dizia: “bacalau”.

 

ROSAMARIA – era agarrada com o pai. Só com ele visitava a avó, de manhã, vestida de “hominho” como ela dizia. Convidada para almoçar, era taxativa: “Tada um tome na sua tasa”.

 

JOSÉ GERALDO – adorava livros de figuras. Folheava-os com a maior atenção. Era muito observador. Certa vez, estando à janela com um priminho – ele só tinha 4 anos – vendo que um homem saltara do cavalo e começara a penteá-lo, saiu-se com esta: “Pentear macaco, já vi. Pentear ‘cavaro’ nunca vi”.

 

CLÁUDIO – foi o neto (herdou o nome do avô). Gordo, calmo, acho que até na hora de nascer, pois veio grandão. Foi sempre bom. Quando recebia dinheiro, deixava-o à vista, pois “alguém podia precisar”.

 

JOÃO LEÔNCIO – embora com audição prejudicada, era desde pequeno, afinadíssimo. Certa vez, indo para Muriqui, perdeu o trem, mas usou o engenho e foi chegar lá tarde, e o pessoal já estava aflito.

 

JÚLIO CEZAR – pequenino ainda, dobrava as roupas quando as trocava para dormir, mas as dobrava no chão. Certa vez fugiu da sala (no Jardim de Infância) e foi parar na sala de música no Instituto de Educação. Escondeu-se atrás das cortinas empoeiradas e foi recuperado a custo – com uma crise de asma.

 

MARCUS AFONSO – adorava filmes de índios. No colégio, corria tanto após a aula, no terreno, que era grande, que um par de calçado vulcabrás só durava um mês. Gastava-se não só na sola, mas na parte de cima! E as meias, todo dia voltavam cheias da terra. Mais tarde, já no ginásio “perdeu as calças” jogando futebol. Felizmente estava de calção. Colocara as calças na traseira de um carro no estacionamento, e o professor dono do carro foi-se... com as preciosas calças! Bem pequeno ainda, seus brinquedos preferidos eram tampinhas de pasta de dentes, que arrumavam em fila, como trenzinho.

 

MARIO CLÁUDIO – Pouco participou da vida dos avós. Mas era lindinho: parecia um bebê de borracha. Uma travessura que marcou: com Marcus, mergulhava de cima do armário duplex sobre a cama, e já se sabe, o estrado se foi...

 

MARIA ELIZABETH – A avó queria uma neta com o nome da rainha da Inglaterra, e conseguiu. Beth estava sempre arrumada, parecia uma boneca saída da caixa. Crescida era afobada. Na casa da avó, quando se sentava, parecia entrar pela parede da casa da vizinha, o que provocava risadas sem fim. Como Christine, era louca por comprar revistas no jornaleiro, sabe-se lá por que?

 

MARIE CHRISTINE – esta já não pegou o vovô e a casa-mãe já era um apartamento. E, morando em São Paulo, longe, pouco participava da vida dos outros. Mas estava junto da Beth, nas aulas de inglês. E, morando no norte, se escandalizava com a falta de vaidades das moças do Rio. Quando dormia no apartamento da avó, era comum sumir durante a noite, para o quarto da Bina.

 

JEAN PIERRE – Crítico, calado, inteligente. Certa vez, tendo a mãe desmaiado, viu todo mundo se aglomerando em volta dela, e comentou: “parecem formigas em volta de uma barata...”

E, numa sexta-feira Santa, ficou muito contristado porque o empurravam na fila, e queixou-se: “Mãe não me deixaram nem lamber o papai do céu”...

 

JACQUELINE – ao voltar de um passeio com uma das tias, sumiu! Foi uma dificuldade recupera-la. Quando teimava, só obedecia quando a tia começava a declamar a carta que iria escrever para o pai; bastava a primeira frase: Querido Jean Claude, e ela logo atendia. Foi daminha no casamento de Vera. Toda de veludo vermelho, com um botão de rosa branco nas mãos, parecia uma pintura.

Da criançada que foi aparecendo depois, mais de 20, só ficaram as gracinhas de Rosane. Aos dois anos negou-se a tomar o Nescau com a avó: “Você está muito velhinha, vovó, e suja meu vestido...”

E, aprendendo sobre os sentidos: “Para que servem os olhos”? Para ver, respondeu. Foi certeira no uso do nariz e da boca. Mas... e o ouvido? Foi rápida a resposta: “Para por o aparelho”!, Bem a vovó não ouve bem,e já está “aparelhada”. 

 

Certamente, os netos e bisnetos que vieram depois, também fizeram suas gracinhas e artes, deixando também lembranças... Mas... não mais se reuniram aos demais, com aqueles laços tão fortes que faziam com que todos se amassem, confortassem e se divertissem juntos. A vida separou muitos, e muitos se separaram daquele primeiro núcleo, porque...

Já não se fazem mais famílias como antigamente...

 

DEDEI

Evangelina Falcão de Mendonça

              Junho 2000

Escritos da Dedei

Soneto para o Davi

Crescei e multiplicai-vos

Boas lembranças da Família

Ayres Feliciano de Mendonça

Almirante Antonio Ayres de Mendonça

Padre Mario Coelho de Mendonça

Januária Ramos Jubé

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