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Na
manhã de Natal, era grande a ansiedade. Os que moravam na casa – mãe
impacientavam-se aguardando a chegada dos primos que moravam fora. Quando a
turma toda estava reunida, em fila por idade, avó abria a porta da sala de
visitas: a caverna de Ali-Babá. Todos procuravam seu pé de sapato ali deixado
na véspera – e eram só exclamações de alegrias.
Como
era bom e bonito! Cada um segurava os seus presentes enquanto o avô,
pachorrento, dobrava papeis e fitilhos coloridos. Seguia-se o almoço festivo.
Era um dia inteiro da família reunida.
Os
aniversários eram festejados na casa-mãe. A sala era enorme e tudo era feito
em casa: bolo, doces, salgados, papéis de balas...
Depois
havia sessões ininterruptas de cinema – filmes e projetor hoje obsoletos. Mas
a criançada vibrava.
As
festas juninas eram outro motivo para reunir a família. E, no carnaval, todos
dançavam, cantavam e brincavam até tarde. Para alguns amigos, a família foi
apelidada: Unidos da Conde Bonfim”.
Tudo
foi terminando aos poucos, porque “não se fazem mais famílias como
antigamente”.
Paulo
Cláudio foi
o primeiro da terceira geração. Primeiro filho, primeiro neto, primeiro
sobrinho. Como foi mimado! Bebê jamais adormeceu deitado no “Moisés”.
Todos queriam acalenta-lo, nina-lo no colo. Até completar dois anos não
falava, embora pronunciasse todos os fonemas. Mas falar, pra que? Se seus
desejos eram adivinhados...
Aos
quatro anos foi para o jardim de Infância. Foi e voltou no mesmo dia. O fígado
protestou e o menino só voltou ao Jardim no ano seguinte.
JOÃO
CLÁUDIO - Chegou pouco depois. Um bebê em tecnicolor: cabelos louros, olhos
azuis, pele branca e ... rosto vermelho, quando no troninho. Levado! Tão levado
que a babá só levava à pracinha com “arreio”.
ANA MARIA – foi a terceira a vir. Independente, geniosa, apaixonada
pelo avô. Se os pais queriam leva-la a passear aos domingos, era uma tragédia:
queria ficar com o avô o dia inteiro. Quando saia à rua com ele, dizia para a
avó: “Se alguma moça falar com ele, dou-lhe pontapés nas canelas”. Quando
se separou – foram morar em Curvelo-MG – ela e o avô eram os que mais
choravam na partida. E lá longe ela escrevia cartas para o avô – cartas que
não enviava e que ela mesma respondia, pois ele já se fora.
MARIA
LUCIA – era gordinha. Tipo de holandesa. Olhos bem azuis, bem clara. Maria Lúcia
era pachorrenta. Não tinha pressa. Quando ia às paradas militares na
cidade, quem lhe dava a mão já sabia: tinha que esticar o braço e fazer força.
VERA
MARIA – era a chorona. Ficava horas sentada na cadeira alta, ao lado da
geladeira na cozinha. Quando cresceu um pouco e era contrariada jogava-se na
cama cantando: “Um trevo no meu jardim”. Não tinha muita memória – mas
foi persistente, e aperfeiçoou essa faculdade de tal forma, que sabia o livro e
a página em que se encontrava determinado assunto.
CARMEM
MARIA – era miudinha. Num carnaval, vestiram-na de gatinho preto. Passou uma véspera
de Natal na casa-mãe. Foi uma noite de chorinho baixo: ela queria a mãe...
Quando se perguntava a ela o que queria comer, dizia: “bacalau”.
ROSAMARIA – era agarrada com o pai. Só com ele visitava a avó, de manhã,
vestida de “hominho” como ela dizia. Convidada para almoçar, era taxativa:
“Tada um tome na sua tasa”.
JOSÉ
GERALDO – adorava livros de figuras. Folheava-os com a maior atenção. Era
muito observador. Certa vez, estando à janela com um priminho – ele só tinha
4 anos – vendo que um homem saltara do cavalo e começara a penteá-lo,
saiu-se com esta: “Pentear macaco, já vi. Pentear ‘cavaro’ nunca vi”.
CLÁUDIO
– foi o neto (herdou o nome do avô). Gordo, calmo, acho que até na hora de
nascer, pois veio grandão. Foi sempre bom. Quando recebia dinheiro, deixava-o
à vista, pois “alguém podia precisar”.
JOÃO LEÔNCIO
– embora com audição prejudicada, era desde pequeno, afinadíssimo. Certa
vez, indo para Muriqui, perdeu o trem, mas usou o engenho e foi chegar lá
tarde, e o pessoal já estava aflito.
JÚLIO
CEZAR – pequenino ainda, dobrava as roupas quando as trocava para dormir, mas
as dobrava no chão. Certa vez fugiu da sala (no Jardim de Infância) e foi
parar na sala de música no Instituto de Educação. Escondeu-se atrás das
cortinas empoeiradas e foi recuperado a custo – com uma crise de asma.
MARCUS
AFONSO – adorava filmes de índios. No colégio, corria tanto após a aula, no
terreno, que era grande, que um par de calçado vulcabrás só durava um mês.
Gastava-se não só na sola, mas na parte de cima! E as meias, todo dia voltavam
cheias da terra. Mais tarde, já no ginásio “perdeu as calças” jogando
futebol. Felizmente estava de calção. Colocara as calças na traseira de um
carro no estacionamento, e o professor dono do carro foi-se... com as preciosas
calças! Bem pequeno ainda, seus brinquedos preferidos eram tampinhas de pasta
de dentes, que arrumavam em fila, como trenzinho.
MARIO
CLÁUDIO – Pouco participou da vida dos avós. Mas era lindinho: parecia um
bebê de borracha. Uma travessura que marcou: com Marcus, mergulhava de cima do
armário duplex sobre a cama, e já se sabe, o estrado se foi...
MARIA
ELIZABETH – A avó queria uma neta com o nome da rainha da Inglaterra, e
conseguiu. Beth estava sempre arrumada, parecia uma boneca saída da caixa.
Crescida era afobada. Na casa da avó, quando se sentava, parecia entrar pela
parede da casa da vizinha, o que provocava risadas sem fim. Como Christine, era
louca por comprar revistas no jornaleiro, sabe-se lá por que?
MARIE
CHRISTINE – esta já não pegou o vovô e a casa-mãe já era um apartamento.
E, morando em São Paulo, longe, pouco participava da vida dos outros. Mas
estava junto da Beth, nas aulas de inglês. E, morando no norte, se
escandalizava com a falta de vaidades das moças do Rio. Quando dormia no
apartamento da avó, era comum sumir durante a noite, para o quarto da Bina.
JEAN
PIERRE – Crítico, calado, inteligente.
Certa
vez, tendo a mãe desmaiado, viu todo mundo se aglomerando em volta dela, e
comentou: “parecem formigas em volta de uma barata...”
E,
numa sexta-feira Santa, ficou muito contristado porque o empurravam na fila, e
queixou-se: “Mãe não me deixaram nem lamber o papai do céu”...
JACQUELINE
– ao voltar de um passeio com uma das tias, sumiu! Foi uma dificuldade
recupera-la. Quando teimava, só obedecia quando a tia começava a declamar a
carta que iria escrever para o pai; bastava a primeira frase: Querido Jean
Claude, e ela logo atendia. Foi daminha no casamento de Vera. Toda de veludo
vermelho, com um botão de rosa branco nas mãos, parecia uma pintura.
Da
criançada que foi aparecendo depois, mais de 20, só ficaram as gracinhas de
Rosane. Aos dois anos negou-se a tomar o Nescau com a avó: “Você está muito
velhinha, vovó, e suja meu vestido...”
E,
aprendendo sobre os sentidos: “Para que servem os olhos”? Para ver,
respondeu. Foi certeira no uso do nariz e da boca. Mas... e o ouvido? Foi rápida
a resposta: “Para por o aparelho”!, Bem a vovó não ouve bem,e já está
“aparelhada”.
Certamente,
os netos e bisnetos que vieram depois, também fizeram suas gracinhas e artes,
deixando também lembranças... Mas... não mais se reuniram aos demais, com
aqueles laços tão fortes que faziam com que todos se amassem, confortassem e
se divertissem juntos. A vida separou muitos, e muitos se separaram daquele
primeiro núcleo, porque...
Já
não se fazem mais famílias como antigamente...
DEDEI
Evangelina Falcão de
Mendonça
Junho 2000
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